O último fôlego


Não houve vida inteira que lhe passasse diante dos olhos. Diferente de todos os lugares comuns que ouvira, não houve o primeiro dia de aula dos filhos ou suas formaturas, não houve o dia de seu casamento, ou o nascimento da primeira neta. Aos oitenta e três anos, quando tomou seu último fôlego, sem saber que era o último, mas suspeitando que fosse, fechou os olhos, puxou com a força que lhe sobrava o ar que lhe restava e não houve nada dessas coisas.
Sozinha, numa tarde qualquer da semana, na poltrona costumeira das horas de crochê, com os olhos fechados durante o breve instante da última respiração foi o olfato, o derradeiro sentido a preencher-lhe a alma que partia.
Lembrou a maresia que lhe adentrara as narinas moças muitos anos antes, numa tarde perdida da memória pelos vãos de acontecimentos no tempo que transcorreu até ali. Um vento calmo e ousado alcançou-lhe no alto do Outeiro da Glória, trazendo o perfume de mar que tanto a enjoava, durante o passeio familiar numa tarde de sábado do ano de 1938.
Tinha então quinze anos e aos sábados a rotina de passeios vespertinos com seus pais e a irmã mais nova, à época com quatro.
Não poderia ter sido melhor seu último suspiro. Estava exultante em ter conseguido, sessenta e oito anos depois, resgatar aquele cheiro, aquele lugar, aquele rosto, aquele sorriso.
Não sentia agora enjôo algum. A maresia aos oitenta e três era finalmente doce.
De olhos fechados e narinas mareadas, reviu a pia do outeiro onde naquela tarde secretamente molhou os dedos aproveitando um instante em que seus pais, distraídos dela, ocupavam-se com a mais nova. Olhou em volta, a ver se alguém notara sua transgressão e assustou-se deixando escapar um som que chamou de volta seus pais à razão de sua presença. Olhou para outro lado. Olhou para o chão, para o teto, para os azulejos, para lugar nenhum.
Com medo, secou as pontas dos dedos na barra do vestido com uma pressa indisfarçável e, enquanto sentiu que seu pai ainda procurava a causa do susto, evitou a direção de antes.
Tão logo achou que podia, olhou de novo, com a mesma pressa que teve em secar os dedos. Tentou parecer calma, mas não podia. O coração palpitava como não era apropriado a uma moça de família, aos quinze anos e durante um passeio familiar vespertino especialmente.
Era de tudo um pouco. De tudo, um pouco de medo, um pouco de vergonha, um pouco de um calor para o qual não registrara código ainda, um pouco de gosto. Gosto porque das palavras prazer e gozo não conhecia.
Era um rosto proibido a olhar para ela. Uma barba rabiscada de leve, por fazer, olhar apressado, suspeito, cúmplice. Um rosto menino de um homem que a viu molhar em segredo as pontas dos dedos.
O pai, desconfiado, pôs-lhe os olhos fixos, de modo a não perder um canto para onde se virasse o rosto da filha mais velha. Viu afinal o menino homem. Puxou feroz a filha pelo braço, olhou com fúria para a esposa e, sem dizer palavra, ordenou que pegasse a mais nova. Iriam embora imediatamente.
Sujo! Exclamou em voz baixa para a mulher. Com cara de comunista, acrescentou com vergonha ao pronunciar a designação. Seguiu enfurecido balbuciando comentários políticos, éticos e morais e reclamando sem fim. Foram embora.
O susto ao ver quem a viu com os dedos na pia, foi suspeitar de que seria essa a opinião do pai sobre o rosto menino. Era um rosto proibido. Era um rosto lindo e ela, enquanto o pai a puxava pelo braço com força e pressa, olhou para trás ainda uma vez a buscá-lo.
No vazio de vê-lo de novo, suspirou, sessenta e oito anos depois e pela última vez.

7 comentários:

  1. Estamos eu e Tia Virgínia, juntos, lendo seus contos, em, em dueto, aí vai:
    P A R A B É N S !!!!!!!
    Beijos,
    Pai e Tia

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  2. Não era 'em,' era 'então' ....

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  3. Muito bom. Espero o da mulher que se encanta pelo músico da orquestra...

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  4. Atraente desde a introdução, o texto é condutivo, leve e, sobretudo, utiliza-se de um tom lúdico capaz de instigar a imaginação do leitor.

    Um belo texto.



    *P.s.: sugiro inicial capitular.

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  5. PARABÉNS!
    O conto tem um quê machadiano. Eu adoro Machado de Assis!
    Bjs, prima Fernanda

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  6. Seus leitores aguardam, ansiosos, por novas postagens.
    Beijos,
    Pai

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  7. Vim aqui à procura de mais um conto para deliciar-me.
    Aguardo nova postagem.
    Bjs, prim Fernanda

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