Hoje estou mais animada, apesar de todas as minhas enrolações com venda do meu apartamento (a do casamento já passou!), e pretendo dar uma repaginada em um blog que já havia começado em fevereiro e dei uma parada. Nele colocarei meu banco de fotografias para a galera apreciar, comentar se quiser e indicar, também se quiser.
Estou, assim como a Marcela também, ansiosa para lançar o nosso Catalografias e ver quão apreciado ele será. Espero que seja o primeiro de vários livros nossos. E que gostem!
Essa semana pensei em apenas bater papo, falar da nossa ansiedade e divagar... Por isso, não coloquei foto alguma, senão o livro vai acabar sendo publicado no blog e as fotos de um próximo projeto também... Qual seria a graça sem o suspense? É melhor vocês aguardarem o lançamento do nosso nº 1 e depois a gente vê...
Prometo que depois de julho, quando mudar, vou ficar mais centrada, concentrada. E até lá, já teremos lançado nosso filhote!
Beijos a todos
Márcia Vitor
Aqui um espaço para espalhar nossos projetos artístico-literário-fotográficos, loucos, corajosos e um pouco cheios de si ...
Minha vez de novo (e me antecipo ao domingo)
Isso que te incomoda dentro do ouvido é um verme. Raro e incomum, ele cresce como passa o tempo: sem parar. Foi difícil descobri-lo, mas hoje já posso dizer sobre ele com alguma segurança de acompanhamento. Não há o que o refreie, mas que o impulsione há uma ou duas coisas que eu já tenha observado. Tenha cuidado com o que o impulsiona, como eu já disse, é um verme como o tempo: não pára.
Não sei dizer de que tamanho começou ou em que lugar do corpo. É certo que o foco está no ouvido e também que mais rápido cresce conforme o que se passa em tua cabeça.
As crises que te afligem tamanha agudeza da dor se dão nos dias de mais preocupação. Temer o futuro dispara o crescimento do maldito verme. Guarda que o tempo passa sempre, desse para outro, e outro e outros. Não há o que o faça parar, e tremer diante que está guardado por vir,angustiar com o fato de não podermos controlar todas as coisas que virão ou serão arrastadas, é vão. Inútil e vão. Tenha calma. Do contrário, logo ele tomará todos os cantinhos, preencherá todos teus espaços por dentro, até não sobrar lugar para mais nada. Para o ouvido não posso prescrever qualquer remédio. Não te queremos surda, não é? E para que isso não ocorra, é imprescindível também que escutes um tanto menos. Sobre teu verme não foi difícil perceber que se manifesta repetidamente no ouvido porque é lá a concha em que ressonam todas as vozes que te incomodam há tanto tempo e o tempo todo. As vozes que te ensinaram ou tentaram, as que tenha escolhido acatar ou desobedecer, as que te repreenderam, algumas que tenha engolido e as que devolveste conforme se fortalecia tua própria voz e dizia para negares umas tantas coisas que te vinham encher a cabeça. Por isso, como teu médico e amigo, te oriento a ouvir menos. Ao fim do tempo, quando ele se aproxima de acabar para nós, tenho a impressão de que mais vale termos nos dado ouvidos e, assim sendo, ouça mais e mais demoradamente somente aquilo dito por ti mesma.
Vejo-te novamente daqui há um mês. Deixe a consulta marcada antes de sair.
Não sei dizer de que tamanho começou ou em que lugar do corpo. É certo que o foco está no ouvido e também que mais rápido cresce conforme o que se passa em tua cabeça.
As crises que te afligem tamanha agudeza da dor se dão nos dias de mais preocupação. Temer o futuro dispara o crescimento do maldito verme. Guarda que o tempo passa sempre, desse para outro, e outro e outros. Não há o que o faça parar, e tremer diante que está guardado por vir,angustiar com o fato de não podermos controlar todas as coisas que virão ou serão arrastadas, é vão. Inútil e vão. Tenha calma. Do contrário, logo ele tomará todos os cantinhos, preencherá todos teus espaços por dentro, até não sobrar lugar para mais nada. Para o ouvido não posso prescrever qualquer remédio. Não te queremos surda, não é? E para que isso não ocorra, é imprescindível também que escutes um tanto menos. Sobre teu verme não foi difícil perceber que se manifesta repetidamente no ouvido porque é lá a concha em que ressonam todas as vozes que te incomodam há tanto tempo e o tempo todo. As vozes que te ensinaram ou tentaram, as que tenha escolhido acatar ou desobedecer, as que te repreenderam, algumas que tenha engolido e as que devolveste conforme se fortalecia tua própria voz e dizia para negares umas tantas coisas que te vinham encher a cabeça. Por isso, como teu médico e amigo, te oriento a ouvir menos. Ao fim do tempo, quando ele se aproxima de acabar para nós, tenho a impressão de que mais vale termos nos dado ouvidos e, assim sendo, ouça mais e mais demoradamente somente aquilo dito por ti mesma.
Vejo-te novamente daqui há um mês. Deixe a consulta marcada antes de sair.
Marcella Aôr
(A propósito, estou pensando em reativar o wwwaorblog.blogspot.com. Sem compromisso, mas querendo dar uma olhada lá ... be my guest.)
Sobre fotos

Meu amor por fotografia nasceu comigo, como acredito seja assim para todos que a amam. Começei registrando minhas viagens desde muito cedo - por volta dos 12 anos - e não parei.
Um dia, surge um concurso organizado pela associação dos empregados da empresa na qual trabalhava. Bravo! Fui selecionada e lá estava eu acompanhando a exposição, no dia de sua inauguração! Desdobrava-me em orgulho quando alguém se aventurava em analisar minha obra de arte! Sim, uma bela obra de arte sobre um por-do-sol! Tempos idos e bons... Resolvi, então, fazer um curso profissionalizante. Foi o que fiz durante um ano. Faz uns 22 anos...Tempo à beça! Mas o amor...ah, o amor...Esse ainda persiste e agora quero dar todo o valor àquele que me aguardou por tanto tempo!
Bem, não pretendo discursar e nem me aventurar, pelo menos no momento, pelas bandas da literatura aqui e agora neste espaço - mas deixo claro que é outra de minhas inúmeras paixões - e coloco para que vocês avaliem mais uma foto, que não faz parte do nosso primeiro de muitos projetos mas...quem sabe?
Então, é isso! Em breve estaremos lançando nosso livro e vocês, claro serão os primeiros a saber!
Grande abraço a todos!
Márcia Vitor
Cartas na Mesa
Então vamos lá,
Prometemos um livro a ser publicado em algum momento integralmente e dele demos umas breves linhas para conhecimento e depois... Depois passaram-se sei lá, umas três semanas e não voltamos por aqui... ... Redondo engano. Voltamos a conferir os comentários, reações e a acompanhar a votação. rá rá, te peguei!
Está certo, não é justo. Voltar, voltar mesmo, assim com novidades, é fato que não o fizemos. Desculpas.
Bom, então vamos lá, aqui estou eu Marcella (de novo), com algumas cartas a por na mesa. Nossas postagens serão semanais e sempre aos domingos. Ao menos é o que pretendemos... Está certo que talvez alguns possam dizer "ah, já ouvi isso antes..." Verdade, eu tivera antes um outro blog, no qual fizera esta mesma "promessa" e não rolou! Agora entretanto não estou só. O combinado então é: num domingo Marcella, noutro Márcia. Desse jeito não há pressão nem sobrecarga e as chances de dar tudo certinho aumentam.
Aí... aí acontece que cá estou eu, como já disse - de novo - mas me explico.
Não, não vou imperativamente tomar o espaço destinado à outra nesta aventura conjunta, com alguma pretensão que possa ter sido suposta por vocês seguidores maldosos, loucos para ver o circo pegar fogo sempre.
Como parceiras nesta empreitada que somos e estando a Márcia em meio a movimentações intensas em seu dia a dia, dentre as quais seu próprio casamento, realizado quinta feira passada para selar uma união de aaaaaanos com seu ... marido (Pronto, Márcia, falei e a propósito, PARABÉNS -de novo - aos recém casados!!!!), enfim, em meio a tantas coisas às quais ela está se inventando e realizando, telefonou-me pedindo para quebrar essa.
Aproveito então a oportunidade para deixar aqui umas linhas de outubro de 2008, quando andávamos às voltas com o projeto, numa tarde de fotografias e conversas sobre títulos e capas. O conto que já vem não faz parte do projeto, mas foi inspirado nos passos que dávamos em direção a ele e destinado a um concurso literário. Está completamente cru e sem revisão, mas vá lá, a essa hora não vou ficar com melindres para preencher este espaço do qual estamos devedoras...
Prometemos um livro a ser publicado em algum momento integralmente e dele demos umas breves linhas para conhecimento e depois... Depois passaram-se sei lá, umas três semanas e não voltamos por aqui... ... Redondo engano. Voltamos a conferir os comentários, reações e a acompanhar a votação. rá rá, te peguei!
Está certo, não é justo. Voltar, voltar mesmo, assim com novidades, é fato que não o fizemos. Desculpas.
Bom, então vamos lá, aqui estou eu Marcella (de novo), com algumas cartas a por na mesa. Nossas postagens serão semanais e sempre aos domingos. Ao menos é o que pretendemos... Está certo que talvez alguns possam dizer "ah, já ouvi isso antes..." Verdade, eu tivera antes um outro blog, no qual fizera esta mesma "promessa" e não rolou! Agora entretanto não estou só. O combinado então é: num domingo Marcella, noutro Márcia. Desse jeito não há pressão nem sobrecarga e as chances de dar tudo certinho aumentam.
Aí... aí acontece que cá estou eu, como já disse - de novo - mas me explico.
Não, não vou imperativamente tomar o espaço destinado à outra nesta aventura conjunta, com alguma pretensão que possa ter sido suposta por vocês seguidores maldosos, loucos para ver o circo pegar fogo sempre.
Como parceiras nesta empreitada que somos e estando a Márcia em meio a movimentações intensas em seu dia a dia, dentre as quais seu próprio casamento, realizado quinta feira passada para selar uma união de aaaaaanos com seu ... marido (Pronto, Márcia, falei e a propósito, PARABÉNS -de novo - aos recém casados!!!!), enfim, em meio a tantas coisas às quais ela está se inventando e realizando, telefonou-me pedindo para quebrar essa.
Aproveito então a oportunidade para deixar aqui umas linhas de outubro de 2008, quando andávamos às voltas com o projeto, numa tarde de fotografias e conversas sobre títulos e capas. O conto que já vem não faz parte do projeto, mas foi inspirado nos passos que dávamos em direção a ele e destinado a um concurso literário. Está completamente cru e sem revisão, mas vá lá, a essa hora não vou ficar com melindres para preencher este espaço do qual estamos devedoras...
UMA FOTO PARA UM CONCURSO
Como parecerá aos olhos de um jurado? Como a uma banca inteira deles. Com que olhos a verão ao examiná-la todos aqueles olhos pelos quais deve passar? Terá valor? Quanto? O primeiro prêmio, algum prêmio, uma boa colocação? Eu ficaria feliz. Tê-la publicada, reconhecida nas páginas de um livro bem cuidado para ser mais e mais vista. Ou menos.
Fecho os olhos meus e a vejo. Só aí está para mim, nalgum lugar de um estado meu comtemplativo de olhos fechados. Só.
Pronta, impressa, não a vi. Não era preciso. Tão logo a busquei, já estando com o envelope preenchido de acordo com o regulamento do concurso, corri ao correio a enviá-la.
Com o cuidado de não lhe passar os olhos, retirei-a de um envelope que me foi entregue na pequena loja bairrista de fotografia e passei-a ao outro. Mais dez passos, o correio, selo, A.R., preço, pagamento, troco e lá se foi .
Lá se foi ela, a foto, ganhar seu rumo a correr pelos olhos de outros a julgá-la, a ver se vale alguma coisa.
Não era preciso. A mim só já tinha todo o valor que lhe era possível dentre os maiores que lhe quisessem ofertar. No “quem dá mais”, ninguém para mais dar que eu. Por mais altos que fossem os lances e por mais cara que ficasse, ainda seria pouco posto o que é para mim. Mesmo sem a ter visto pronta.
De olhos fechados a revejo, tentando fazer dos meus os olhos de quem a receberá com a tarefa de atribuir-lhe nota.
Há que lembrar que é preciso que a foto tenha por assunto a temática sugerida pelos organizadores do concurso, ou pelo menos a tangencie.Com força aperto os olhos fechados perscrutando-a na tentativa de encontrar onde eles possam ver o que sei. Em que canto do cenário que esta foto compõe estaria sua história? Em que profundidade perceberiam sua relação com o tema? Em que ponto sua luz e sua sombra irão revelar o valor que tem a honra de eu lá ter estado a criá-la numa tarde quente mas agradável, de boas conversas.
Não sei se chegarão a vê-lo, o motivo, o dia, as conversas, o céu tão lindo que estava.
Sim, o céu verão e o dia bonito sem fim. Ao que me lembro, o dia como estava fez a foto ainda mais bela. O céu em moldura, azul infinito, e a rua tranqüila. Os carros, todos os que aparecem estão estacionados. Nenhum trânsito. O único movimento, minha coisa favorita na foto, é a ousadia de um senhor que vai a pedalar pelo meio da rua.
Veja que abuso, pelo meio da rua. O cabelo todo branco de uma idade que vai avançada e a pele de uma cor saborosa e uma firmeza antagônica aos fios brancos que leva na cabeça erguida. A postura indefectível, mas pura, natural. Não há rigidez nem força em seus movimentos, é um pedalar relaxado, leve, sem preocupações. Vai ele tão solto, que um assobio lhe sai dos lábios ensaiando uma melodia doce e contínua. Pedala e assobia, pedala e assobia e pedala. Enquanto pedala vai assobiando displicente ao atravessar a rua vazia. Vai só e lá vai, bem pelo meião dela, sem medo. É o dono do mundo. Daquele pedaço de mundo, onde além dele lá estávamos eu e Marcella a bater fotos e bater papo sobre o projeto que pretendíamos engendrar.
Não era coisa de muito tempo nos termos conhecido, mas já parecia estar vindo bons frutos. As idéias foram boas. São. Quem sabe junto forças para levá-las a termo. A foto foi para umas linhas que ela vinha escrevendo numa dessas idéias que bolamos.
Foi uma tarde boa e produtiva a da foto. Falamos, falamos, tivemos mais idéias e conseguimos a foto. Ela adorou. Quando nos voltamos a ver, no trabalho, me disse que não precisaríamos das outras, desde o momento em que a foto se fez à nossa frente e que eu a capturei, ela já sabia que seria aquela. Acrescentou que não tirava o velhinho de bicicleta da cabeça.
Sim, era do trabalho que nos conhecíamos e não fazia muito tempo. Talvez seja pouco para o que se tenha convencionado dizer que seja necessário ao nomearmos alguém de amigo. Talvez nessas medidas nunca tenhamos sido amigas. Que valores e que critérios para definir esses laços? Então uma tarde com uma máquina fotográfica na mão e umas conversas soltas que nos tenha rendido uma boa foto é pouco? Pouco quanto? Tomara que não muito pouco.
Forço a memória da foto e já nem sei se era isso tudo. Espero que de algum pouco valha aos jurados e que a publiquem, porque gostaria muito de vê-la. Senão fico sendo só eu o que restou daquela tarde. A foto, depois de mandá-la imprimir, apaguei da máquina com as outras que ela descartara sem ver. Guardo-a somente na memória. Eu, a lembrança da foto e aquele senhor na bicicleta, que por certo ainda pedala por aí com seu assobio em deboche do perigo que não corria ao atravessar a rua tranqüila. E a rua, é claro, porque a rua ainda está lá, no mesmo lugar.
Até que são muitas coisas, mas eu gostaria que se somasse a foto pronta, impressa, para eu vê-la de olhos abertos. Para eu sabê-la no real do papel e saber que nela os jurados acharam minha história de uma tarde breve com uma amiga, ou pelo menos perceberam que só tendo amigos para numa idade daquela sair a pedalar por aí pelo meio da rua. Sem outras pessoas as pessoas não pedalam por aí assobiando. Sem outras pessoas o que fazemos é levantar com dificuldade de poltronas velhas, resmungando de dor nos quartos.
Como parecerá aos olhos de um jurado? Como a uma banca inteira deles. Com que olhos a verão ao examiná-la todos aqueles olhos pelos quais deve passar? Terá valor? Quanto? O primeiro prêmio, algum prêmio, uma boa colocação? Eu ficaria feliz. Tê-la publicada, reconhecida nas páginas de um livro bem cuidado para ser mais e mais vista. Ou menos.
Fecho os olhos meus e a vejo. Só aí está para mim, nalgum lugar de um estado meu comtemplativo de olhos fechados. Só.
Pronta, impressa, não a vi. Não era preciso. Tão logo a busquei, já estando com o envelope preenchido de acordo com o regulamento do concurso, corri ao correio a enviá-la.
Com o cuidado de não lhe passar os olhos, retirei-a de um envelope que me foi entregue na pequena loja bairrista de fotografia e passei-a ao outro. Mais dez passos, o correio, selo, A.R., preço, pagamento, troco e lá se foi .
Lá se foi ela, a foto, ganhar seu rumo a correr pelos olhos de outros a julgá-la, a ver se vale alguma coisa.
Não era preciso. A mim só já tinha todo o valor que lhe era possível dentre os maiores que lhe quisessem ofertar. No “quem dá mais”, ninguém para mais dar que eu. Por mais altos que fossem os lances e por mais cara que ficasse, ainda seria pouco posto o que é para mim. Mesmo sem a ter visto pronta.
De olhos fechados a revejo, tentando fazer dos meus os olhos de quem a receberá com a tarefa de atribuir-lhe nota.
Há que lembrar que é preciso que a foto tenha por assunto a temática sugerida pelos organizadores do concurso, ou pelo menos a tangencie.Com força aperto os olhos fechados perscrutando-a na tentativa de encontrar onde eles possam ver o que sei. Em que canto do cenário que esta foto compõe estaria sua história? Em que profundidade perceberiam sua relação com o tema? Em que ponto sua luz e sua sombra irão revelar o valor que tem a honra de eu lá ter estado a criá-la numa tarde quente mas agradável, de boas conversas.
Não sei se chegarão a vê-lo, o motivo, o dia, as conversas, o céu tão lindo que estava.
Sim, o céu verão e o dia bonito sem fim. Ao que me lembro, o dia como estava fez a foto ainda mais bela. O céu em moldura, azul infinito, e a rua tranqüila. Os carros, todos os que aparecem estão estacionados. Nenhum trânsito. O único movimento, minha coisa favorita na foto, é a ousadia de um senhor que vai a pedalar pelo meio da rua.
Veja que abuso, pelo meio da rua. O cabelo todo branco de uma idade que vai avançada e a pele de uma cor saborosa e uma firmeza antagônica aos fios brancos que leva na cabeça erguida. A postura indefectível, mas pura, natural. Não há rigidez nem força em seus movimentos, é um pedalar relaxado, leve, sem preocupações. Vai ele tão solto, que um assobio lhe sai dos lábios ensaiando uma melodia doce e contínua. Pedala e assobia, pedala e assobia e pedala. Enquanto pedala vai assobiando displicente ao atravessar a rua vazia. Vai só e lá vai, bem pelo meião dela, sem medo. É o dono do mundo. Daquele pedaço de mundo, onde além dele lá estávamos eu e Marcella a bater fotos e bater papo sobre o projeto que pretendíamos engendrar.
Não era coisa de muito tempo nos termos conhecido, mas já parecia estar vindo bons frutos. As idéias foram boas. São. Quem sabe junto forças para levá-las a termo. A foto foi para umas linhas que ela vinha escrevendo numa dessas idéias que bolamos.
Foi uma tarde boa e produtiva a da foto. Falamos, falamos, tivemos mais idéias e conseguimos a foto. Ela adorou. Quando nos voltamos a ver, no trabalho, me disse que não precisaríamos das outras, desde o momento em que a foto se fez à nossa frente e que eu a capturei, ela já sabia que seria aquela. Acrescentou que não tirava o velhinho de bicicleta da cabeça.
Sim, era do trabalho que nos conhecíamos e não fazia muito tempo. Talvez seja pouco para o que se tenha convencionado dizer que seja necessário ao nomearmos alguém de amigo. Talvez nessas medidas nunca tenhamos sido amigas. Que valores e que critérios para definir esses laços? Então uma tarde com uma máquina fotográfica na mão e umas conversas soltas que nos tenha rendido uma boa foto é pouco? Pouco quanto? Tomara que não muito pouco.
Forço a memória da foto e já nem sei se era isso tudo. Espero que de algum pouco valha aos jurados e que a publiquem, porque gostaria muito de vê-la. Senão fico sendo só eu o que restou daquela tarde. A foto, depois de mandá-la imprimir, apaguei da máquina com as outras que ela descartara sem ver. Guardo-a somente na memória. Eu, a lembrança da foto e aquele senhor na bicicleta, que por certo ainda pedala por aí com seu assobio em deboche do perigo que não corria ao atravessar a rua tranqüila. E a rua, é claro, porque a rua ainda está lá, no mesmo lugar.
Até que são muitas coisas, mas eu gostaria que se somasse a foto pronta, impressa, para eu vê-la de olhos abertos. Para eu sabê-la no real do papel e saber que nela os jurados acharam minha história de uma tarde breve com uma amiga, ou pelo menos perceberam que só tendo amigos para numa idade daquela sair a pedalar por aí pelo meio da rua. Sem outras pessoas as pessoas não pedalam por aí assobiando. Sem outras pessoas o que fazemos é levantar com dificuldade de poltronas velhas, resmungando de dor nos quartos.
CATALOGRAFIAS
Catalografias é o título do livro a que nos dedicamos nestes últimos dois anos em reuniões bastante espaçadas considerando-se os compromissos cotidianos de cada uma, de modo que só agora concluímos este projeto que esperamos ser somente o primeiro a que nos queremos arriscar.
Trata-se de uma compilação de contos e fotografias inspirados pela cidade do Rio de Janeiro, dentre os quais, em alguns casos os contos inspiraram as fotos e em outros o inverso se deu.
As fotos que ilustram o projeto são das mais variadas datas e fazem parte do vasto acervo de belíssimos trabalhos da Márcia, fotógrafa, artista plástica, colorida e louca o suficiente para topar essa idéia de vir parar por aqui.
Já os contos foram escritos entre 2001 e 2009, frutos de uns desvarios e audácias minhas e selecionados para a temática proposta, dentre meu breve e pretensioso acervo.
No fim das contas o que conta é que nós duas estamos muito satisfeitas com o resultado que aqui principiamos a apresentar.
Contudo não será aqui que os interessados desfrutarão da leitura da complitude da obra. Este espaço do blog, arquitetamos para fomentar conversas e receber as reações dos que pelo livro se aventurarem lá no quando por fim estiver disponível (fiquem calmos, será muito em breve), com os sete contos e as fotos na íntegra.
Aqui, para uma provinha apenas, postamos por enquanto dois dos contos e fotos.
Esperamos deixá-los com vontade de saborear prato principal e sobremesa e aguardamos ávidas por elogios, críticas, sugestões, espinafradas, manifestações entusiasmáticas, odes, declarações de amor ou de ódio, o que der na telha de quem quiser aqui estar.
Dito isto, ficam postados então os dois trabalhos prometidos, e também nosso e-mail para caso falte aqui espaço para tudo a que nos propomos neste blog: projetoslivrescos@gmail.com.
Um abraço
Marcella Aôr
Trata-se de uma compilação de contos e fotografias inspirados pela cidade do Rio de Janeiro, dentre os quais, em alguns casos os contos inspiraram as fotos e em outros o inverso se deu.
As fotos que ilustram o projeto são das mais variadas datas e fazem parte do vasto acervo de belíssimos trabalhos da Márcia, fotógrafa, artista plástica, colorida e louca o suficiente para topar essa idéia de vir parar por aqui.
Já os contos foram escritos entre 2001 e 2009, frutos de uns desvarios e audácias minhas e selecionados para a temática proposta, dentre meu breve e pretensioso acervo.
No fim das contas o que conta é que nós duas estamos muito satisfeitas com o resultado que aqui principiamos a apresentar.
Contudo não será aqui que os interessados desfrutarão da leitura da complitude da obra. Este espaço do blog, arquitetamos para fomentar conversas e receber as reações dos que pelo livro se aventurarem lá no quando por fim estiver disponível (fiquem calmos, será muito em breve), com os sete contos e as fotos na íntegra.
Aqui, para uma provinha apenas, postamos por enquanto dois dos contos e fotos.
Esperamos deixá-los com vontade de saborear prato principal e sobremesa e aguardamos ávidas por elogios, críticas, sugestões, espinafradas, manifestações entusiasmáticas, odes, declarações de amor ou de ódio, o que der na telha de quem quiser aqui estar.
Dito isto, ficam postados então os dois trabalhos prometidos, e também nosso e-mail para caso falte aqui espaço para tudo a que nos propomos neste blog: projetoslivrescos@gmail.com.
Um abraço
Marcella Aôr
O último fôlego

Não houve vida inteira que lhe passasse diante dos olhos. Diferente de todos os lugares comuns que ouvira, não houve o primeiro dia de aula dos filhos ou suas formaturas, não houve o dia de seu casamento, ou o nascimento da primeira neta. Aos oitenta e três anos, quando tomou seu último fôlego, sem saber que era o último, mas suspeitando que fosse, fechou os olhos, puxou com a força que lhe sobrava o ar que lhe restava e não houve nada dessas coisas.
Sozinha, numa tarde qualquer da semana, na poltrona costumeira das horas de crochê, com os olhos fechados durante o breve instante da última respiração foi o olfato, o derradeiro sentido a preencher-lhe a alma que partia.
Lembrou a maresia que lhe adentrara as narinas moças muitos anos antes, numa tarde perdida da memória pelos vãos de acontecimentos no tempo que transcorreu até ali. Um vento calmo e ousado alcançou-lhe no alto do Outeiro da Glória, trazendo o perfume de mar que tanto a enjoava, durante o passeio familiar numa tarde de sábado do ano de 1938.
Tinha então quinze anos e aos sábados a rotina de passeios vespertinos com seus pais e a irmã mais nova, à época com quatro.
Não poderia ter sido melhor seu último suspiro. Estava exultante em ter conseguido, sessenta e oito anos depois, resgatar aquele cheiro, aquele lugar, aquele rosto, aquele sorriso.
Não sentia agora enjôo algum. A maresia aos oitenta e três era finalmente doce.
De olhos fechados e narinas mareadas, reviu a pia do outeiro onde naquela tarde secretamente molhou os dedos aproveitando um instante em que seus pais, distraídos dela, ocupavam-se com a mais nova. Olhou em volta, a ver se alguém notara sua transgressão e assustou-se deixando escapar um som que chamou de volta seus pais à razão de sua presença. Olhou para outro lado. Olhou para o chão, para o teto, para os azulejos, para lugar nenhum.
Com medo, secou as pontas dos dedos na barra do vestido com uma pressa indisfarçável e, enquanto sentiu que seu pai ainda procurava a causa do susto, evitou a direção de antes.
Tão logo achou que podia, olhou de novo, com a mesma pressa que teve em secar os dedos. Tentou parecer calma, mas não podia. O coração palpitava como não era apropriado a uma moça de família, aos quinze anos e durante um passeio familiar vespertino especialmente.
Era de tudo um pouco. De tudo, um pouco de medo, um pouco de vergonha, um pouco de um calor para o qual não registrara código ainda, um pouco de gosto. Gosto porque das palavras prazer e gozo não conhecia.
Era um rosto proibido a olhar para ela. Uma barba rabiscada de leve, por fazer, olhar apressado, suspeito, cúmplice. Um rosto menino de um homem que a viu molhar em segredo as pontas dos dedos.
O pai, desconfiado, pôs-lhe os olhos fixos, de modo a não perder um canto para onde se virasse o rosto da filha mais velha. Viu afinal o menino homem. Puxou feroz a filha pelo braço, olhou com fúria para a esposa e, sem dizer palavra, ordenou que pegasse a mais nova. Iriam embora imediatamente.
Sujo! Exclamou em voz baixa para a mulher. Com cara de comunista, acrescentou com vergonha ao pronunciar a designação. Seguiu enfurecido balbuciando comentários políticos, éticos e morais e reclamando sem fim. Foram embora.
O susto ao ver quem a viu com os dedos na pia, foi suspeitar de que seria essa a opinião do pai sobre o rosto menino. Era um rosto proibido. Era um rosto lindo e ela, enquanto o pai a puxava pelo braço com força e pressa, olhou para trás ainda uma vez a buscá-lo.
No vazio de vê-lo de novo, suspirou, sessenta e oito anos depois e pela última vez.
Sozinha, numa tarde qualquer da semana, na poltrona costumeira das horas de crochê, com os olhos fechados durante o breve instante da última respiração foi o olfato, o derradeiro sentido a preencher-lhe a alma que partia.
Lembrou a maresia que lhe adentrara as narinas moças muitos anos antes, numa tarde perdida da memória pelos vãos de acontecimentos no tempo que transcorreu até ali. Um vento calmo e ousado alcançou-lhe no alto do Outeiro da Glória, trazendo o perfume de mar que tanto a enjoava, durante o passeio familiar numa tarde de sábado do ano de 1938.
Tinha então quinze anos e aos sábados a rotina de passeios vespertinos com seus pais e a irmã mais nova, à época com quatro.
Não poderia ter sido melhor seu último suspiro. Estava exultante em ter conseguido, sessenta e oito anos depois, resgatar aquele cheiro, aquele lugar, aquele rosto, aquele sorriso.
Não sentia agora enjôo algum. A maresia aos oitenta e três era finalmente doce.
De olhos fechados e narinas mareadas, reviu a pia do outeiro onde naquela tarde secretamente molhou os dedos aproveitando um instante em que seus pais, distraídos dela, ocupavam-se com a mais nova. Olhou em volta, a ver se alguém notara sua transgressão e assustou-se deixando escapar um som que chamou de volta seus pais à razão de sua presença. Olhou para outro lado. Olhou para o chão, para o teto, para os azulejos, para lugar nenhum.
Com medo, secou as pontas dos dedos na barra do vestido com uma pressa indisfarçável e, enquanto sentiu que seu pai ainda procurava a causa do susto, evitou a direção de antes.
Tão logo achou que podia, olhou de novo, com a mesma pressa que teve em secar os dedos. Tentou parecer calma, mas não podia. O coração palpitava como não era apropriado a uma moça de família, aos quinze anos e durante um passeio familiar vespertino especialmente.
Era de tudo um pouco. De tudo, um pouco de medo, um pouco de vergonha, um pouco de um calor para o qual não registrara código ainda, um pouco de gosto. Gosto porque das palavras prazer e gozo não conhecia.
Era um rosto proibido a olhar para ela. Uma barba rabiscada de leve, por fazer, olhar apressado, suspeito, cúmplice. Um rosto menino de um homem que a viu molhar em segredo as pontas dos dedos.
O pai, desconfiado, pôs-lhe os olhos fixos, de modo a não perder um canto para onde se virasse o rosto da filha mais velha. Viu afinal o menino homem. Puxou feroz a filha pelo braço, olhou com fúria para a esposa e, sem dizer palavra, ordenou que pegasse a mais nova. Iriam embora imediatamente.
Sujo! Exclamou em voz baixa para a mulher. Com cara de comunista, acrescentou com vergonha ao pronunciar a designação. Seguiu enfurecido balbuciando comentários políticos, éticos e morais e reclamando sem fim. Foram embora.
O susto ao ver quem a viu com os dedos na pia, foi suspeitar de que seria essa a opinião do pai sobre o rosto menino. Era um rosto proibido. Era um rosto lindo e ela, enquanto o pai a puxava pelo braço com força e pressa, olhou para trás ainda uma vez a buscá-lo.
No vazio de vê-lo de novo, suspirou, sessenta e oito anos depois e pela última vez.
Namoricos
Aquele cara que era lá do colégio, está namorando a Gávea. Como é mesmo o nome dele? Pedro? Isso, Pedro. Nossa, há quanto tempo não nos vemos. Quer dizer que, pelas novas, ele agora é namorado da Gávea?! Pedro da Gávea.Os dois se divertem. Nas primeiras horas do dia ele escala a pedra, acarinhando cada canto com afeto matinal até chegar ao topo, onde se aconchega e admira seu amor e sua vizinhança. Às vezes, depois do almoço, conversam durante horas tomando um café ou vão ao teatro de mãos dadas e a noite, que aos amantes pertence, o encontro no baixo para uma cerveja.
Comentam que Pedro tem um caso com a Lapa, mas a Gávea não se importa. O que são sextas e sábados, quando de Segunda à Quinta é só dela e de mais ninguém?
Pedro se orgulha da Segunda sem lei, convida os amigos , exibe a namorada e posa de anfitrião acompanhando-a até de manhãzinha para depois descansarem juntos, um no colo do outro.
Triste ficou foi a princesinha do mar, que flertava com ele há meses. Vive agora de ressaca, afogando salobra as mágoas de um amor em silêncio. Que o digam as pedras portuguesas... o calçadão virou um pouco muro de lamentações.
Quem contou foi a Bia, que tem uma amizade colorida com os boatos e que soube pela Catarina, prima irmã do velho ditado "quem conta um conto..." Então, vai saber.
Fofocas de lado, o que vale é que lá estão Pedro e a pedra da Gávea, Bia colorindo boatos, Catarina e os pontos dos contos e Copacabana toda chorosa. E eu? Ai que vontade de um romance estapafúrdio! O Leblon casou-se com Ipanema ao som dos famosos poetas e uniram-se pelo mar que não tem quem os separe. Será que o Humaitá está solteiro?
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